Aline Veingartner

correspondência Arquivo Selvagem

Anos atrás, participei de um coletivo com amigas hispanohablantes em que a gente inventava exercícios e escrevia poemas em espanhol. Eram três movimentos criativos: primeiro, criar instruções de escrita, ativando estímulos para que as outras pessoas produzissem a partir dali; segundo, topar a proposta alheia e desenvolvê-la; terceiro, ler umas às outras e conversar acaloradamente sobre a matéria da poesia, questões de forma, técnicas de escrita e seus desvios, além de todo o arsenal de impressões e fricções que as leituras nos causavam.

Na ocasião, sugeri um exercício que envolvia buscar a casa de infância em aplicativos de mapa, percorrer a rua utilizando o recurso “street view”, fazer capturas de tela e, a partir das imagens da casa e seus arredores, produzir um texto. O que não previ foi que, de algum modo, a atividade parecia demandar ter vivido em uma “casa de infância” (e o que quer que isso signifique) e lembrar-se do endereço.

Também podia acontecer de a casa simplesmente não existir mais.

É o caso de um sobrado onde morei durante um período da minha vida adulta e que, uma década depois, foi demolido pelo trator do mercado imobiliário. Descobri por acaso, vendo o noticiário. Virou notícia porque a construção fazia parte de uma antiga vila de operários em São Paulo que, recentemente, perdeu a proteção do patrimônio histórico por decisão municipal. Foi chocante ver um vazio de ruínas num espaço que, antes, eu chamei de “casa”.

Foi ali que vi pela primeira vez a palavra “abraçaço” (uma prima fofinha do “panelaço”?), isto é, uma manifestação política em que as pessoas se dão as mãos para cercar e simbolizar a preservação de um local. Nos últimos anos, no Brasil, os abraçaços tentaram salvar parques, praças, esculturas, rios e cinematecas. Em 2017, o Teatro Oficina, em imbróglio territorial por décadas, reuniu mais de mil pessoas e, sete anos depois, teve seu terreno transferido para o poder público para implementação do Parque do Bixiga.

Não teve o mesmo destino feliz a vila operária. O abraçaço não pôde evitar que o sobrado onde vivi por anos sumisse do mapa.

*

As escritoras que receberam minha proposta no coletivo encontraram modos inusitados de imaginar e compartilhar, na forma de poemas, a tal “casa da infância”. A fabulação – narração de eventos e fatos imaginários – é um caminho possível para preencher criativamente lacunas da memória, rebocar buracos (ou furacos, como brinca minha amiga Dai), retirar tapumes e subir paredes que forças internas ou externas derrubaram.

No meu caso, a casa onde passei os primeiros anos de vida ainda está de pé.

Mesmo assim, para compor meu poema, decidi misturar ingredientes biográficos com elementos inventados:

cuando contigo vivía

cuando contigo vivía
todavía no tenías esa sonrisa
de balaustres

no tenías esas rejas
y tus manos
no empuñaban cuchillos

donde hoy guardas un auto
antes
trabajaba de puertas abiertas
mi abuelo jardinero
que no conocí

no se veía
detrás de ti
ese edificio que asalta el sol
del patio donde
mi abuela
mi madre
yo
colgaba las ropas
cosechaba limones
manchaba la piel
hasta hoy

tenías otro color
otra textura
otro número
y la gente te buscaba
en libros amarillos
que ya no existen

como ya no existen en tu suelo
los trozos de cerámica
en los que piso en mis sueños
y me corto los pies

no eras desnuda:
te cubrían plantas
muchas plantas
incluso un árbol
que brotó y creció
no se sabe cómo
en tu techo
y lo mantuvimos ahí
para protegernos
bajo sus raíces

*

Falar sobre a casa da infância em outra língua – não a língua onde morei os primeiros anos de vida – foi habitá-la uma segunda vez. E também fez o coletivo pensar que, a cada mudança, seja por dentro ou por fora, é preciso atribuir novos sentidos à palavra “casa”.

E para ti, que sentidos tem a palavra “casa” hoje em dia? O lugar onde você cresceu ainda consta no mapa? Que terrenos da vida – ou do mundo – te convocaria a uma manifestação de abraçaço? Que elementos fabulatórios você incluiria num texto a partir das imagens, reais ou fictícias, de uma suposta casa de infância?

*

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